Foto: Vinicius Becker (Diário)
As festas das comunidades católicas da Arquidiocese de Santa Maria voltaram a ser autorizadas após o encerramento do Ano Jubilar, em 28 de dezembro de 2025. No entanto, embora bailes dançantes estejam liberados, a proibição sobre a comercialização de bebidas alcoólicas em todos os eventos foi mantida, o que segue dividindo opiniões entre lideranças religiosas e representantes comunitários do interior. Enquanto parte das comunidades avalia a medida como positiva por fortalecer o caráter familiar e religioso dos eventos, outra parcela critica a restrição e aponta perda de autonomia e descontentamento entre os fiéis.
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De um lado, há relatos de experiências consideradas bem-sucedidas durante o período de proibição. Ministro extraordinário da Sagrada Comunhão e ex-tesoureiro de comunidade, Rodrigo Giovelli, da Paróquia Santíssima Trindade de Nova Palma, afirma que, nos últimos dois anos, duas festas foram realizadas sem bebidas alcoólicas, sem prejuízo financeiro ou redução de público. Segundo ele, o ambiente se tornou mais familiar e alinhado aos valores pregados pela Igreja Católica. Apesar de reconhecer resistências iniciais, Giovelli avalia que hoje o tema está mais pacificado.
– Não tivemos redução de lucro, nem de público, e o clima ficou muito mais familiar, em conformidade com o que a Igreja Católica prega. Claro que sempre há resistência por uma parte do povo, mas hoje já está mais tranquilo. Essa mudança veio ao encontro ao anseio de pessoas que trabalham na igreja há muito tempo – avalia.
Na avaliação dele, a retirada do álcool também facilita a organização das festas e contribui para a conscientização dos fiéis.
– A bebida vem há muito tempo destruindo famílias e nós, como católicos, devemos dar o exemplo. Além disso, fica muito mais fácil para quem trabalha na organização da festa – argumenta.
Ele relembra que a discussão sobre a exclusão de bebidas alcoólicas nas festas de padroeiro já existia na paróquia em períodos anteriores, ainda quando dom José Mário Angonese era pároco em Nova Palma. Para Giovelli, embora toda mudança gere resistência, a medida é necessária diante dos impactos do alcoolismo na vida familiar e no testemunho cristão das comunidades.
Oposição
Em sentido oposto, representantes de entidades do meio rural e lideranças comunitárias veem a proibição com críticas. Delcimar Borin, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santa Maria, sustenta que associar a venda de bebidas alcoólicas em festas do interior à violência ou à preservação da vida é um equívoco. Segundo ele, pessoas que enfrentam o alcoolismo, em geral, não frequentam as comunidades religiosas.
– Sugerir que a venda de cerveja em uma festa de comunidade do interior é estimular a violência ou que a proibição é para preservar a vida não tem nada a ver. Não é a venda de bebidas em uma ou duas festas por ano que faz uma pessoa se perder no alcoolismo, mas a distância da fé – afirma.
Borin também argumenta que, mesmo com as restrições impostas no último ano, o consumo continuou ocorrendo de forma paralela. Na avaliação dele, isso resultou apenas em perda de arrecadação para as comunidades, sem alterar o comportamento do público. O dirigente ainda recorda passagens bíblicas para sustentar sua posição.
– As pessoas saíam de casa com isopor, levando cerveja e refrigerante para consumir lá na festa. O primeiro milagre de Jesus foi transformar água em vinho nas bodas de Caná. O problema não está na bebida, mas na distância das pessoas da fé – afirma.
Além da questão do álcool, Borin aponta um descontentamento mais amplo com mudanças administrativas promovidas pela Arquidiocese. Ele relata reclamações recorrentes sobre a redução da autonomia das comunidades, que passaram a depender de autorizações para promoções, reformas e decisões financeiras. Conforme Borin, o trabalho voluntário segue sendo essencial no interior, mas hoje estaria cercado por cobranças.
– As pessoas doam seu trabalho voluntário, gratuito para a comunidade, e hoje tudo é baseado em taxas e contratos. Isso está aborrecendo muita gente no interior – critica.
A reportagem procurou a Arquidiocese de Santa Maria, que preferiu não se manifestar, alegando que o posicionamento do dom Leomar Brustolin a respeito do tema foi feito na missa de encerramento do Ano Jubilar.
Relembre a proibição
A polêmica em torno das festas começou oficialmente no fim de 2024. A norma que proibiu festas com bebidas alcoólicas e música foi aprovada por unanimidade pelo Conselho Arquidiocesano de Pastoral em 19 de outubro daquele ano e entrou em vigor em 29 de dezembro de 2024, com validade até 28 de dezembro de 2025. A decisão alcançou todas as 39 paróquias da Arquidiocese de Santa Maria e foi vinculada ao Ano Jubilar da Esperança.
À época, o arcebispo dom Leomar Antônio Brustolin explicou que a medida seguia orientações do papa Francisco. "O papa pede que o Jubileu seja vivido como um tempo de esperança, espiritualidade e reconciliação, e seguimos essa orientação para que o povo compreenda esse momento histórico", afirmou em entrevista concedida em dezembro de 2024. Conforme a bula papal Spes non confundit, o período foi pensado como um tempo de espiritualidade, reconciliação e indulgências, convidando os fiéis a viverem a fé de forma mais intensa e coerente com os valores cristãos.
Mesmo aprovada de forma unânime no âmbito pastoral, a decisão gerou forte repercussão nas comunidades.Vídeos de celebrações e falas do arcebispo circularam nas redes sociais, especialmente trechos em que ele criticava festas com consumo excessivo de álcool e o que chamou de “música bagaceira”. Agora com o fim do Ano Jubilar, a liberação das festas, mas sem bebidas alcoólicas, mantém o debate aberto entre fé, tradição e a realidade das comunidades do interior.